Sexta-feira, 12 de Março de 2010

.: 129. Caim, José Saramago :.

182 páginas

 

Sinopse:

Quem diabo é este Deus que, para enaltecer Abel, despreza Caim?

Se em O Evangelho Segundo Cristo José Saramago nos deu a sua visão do Novo Testamento, em Caim regressa aos primeiros livros da Bíblia. Num itinerário heterodoxo, percorre cidades decadentes e estábulos, palácios de tiranos e campos de batalha pela mão dos principais protagonistas do Antigo Testamento, imprimindo ao texto o humor refinado que caracteriza a sua obra.

Caim revela o que há de moderno e surpreendente na prosa de Saramago: a capacidade de fazer nova uma história que se conhece do princípio ao fim. Um relato irónico e mordaz no qual o leitor assiste a uma guerra secular, e de certa forma, involuntária, entre o criador e a sua criatura.

 

Opinião:

Finalmente consegui deitar as mãos ao livro que tanta polémica gerou há alguns meses.

Gostei bastante da forma como Saramago pôs Caim a viajar "para trás e para diante" no tempo, levando-nos com ele a percorrer, de certa forma, alguns dos mais conhecidos episódios da Bíblia. O estilo é o de sempre: divertido, irónico, sarcástico, crítico... A escrita tão característica continua lá, claro, bem como o hábito que Saramago tem de dialogar com o leitor e que eu tanto aprecio.

Quanto às críticas que faz e à forma como encara a religião... Relativamente ao segundo ponto nada há a dizer, já que cada um é - ou deveria ser - livre de tomar a posição que bem entender em relação às diversas religiões. Em relação ao primeiro ponto, devo dizer que só numa altura me pareceu que o escritor talvez tivesse ido longe demais, quando apelidou Deus de filho-da-p**a. De resto, não posso dizer que discorde das críticas e interrogações que fez àcerca da crueldade de Deus e da violência contida na Bíblia, já que muitas tinham passado anteriormente pela minha mente.

Um livro altamente recomendável.

Sílvia às 21:11
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Quinta-feira, 21 de Janeiro de 2010

.: 125. O Código D'Avintes, Vários :.

252 páginas

Sinopse:

Tudo começa em torno da trama sinistra do Conclave dos Cavaleiros Teutónicos da Nova Ordem que quer dominar o mundo sem olhar a meios.
Por seu lado, Isaías Pires, professor de medicina expulso da Ordem por práticas pouco ortodoxas, pertencente a uma outra organização que se opõe aos intuitos pérfidos do Conclave, sofre um trauma e desata a falar aramaico, língua corrente no tempo de Cristo na Palestina e logo a seguir começam a morrer patos e pombos por todos os cantos.
De repente, todos os personagens, o anjo Gabriel e a sua Sara, Lilith, delirante diva, a Arminda do bar do hospital, o doutor Fraga, a padeira de Avintes, o ex-inspector Nuno Costa, o professor Aquilino, especialista em línguas mortas, e outros mais, bons e maus, desatam a procurar antiquíssimas relíquias sagradas que podem conferir um poder indescritível àqueles que as possuírem.
O cúmulo é que a chave do código para chegar a essas relíquias está escondido justamente numa bela terra à beira do Douro e, por isso mesmo, ficará para sempre conhecido por O Código d'Avintes.

 

Opinião:

O objectivo principal deste livro parece ser, acima de tudo, divertir o leitor - e também os autores, claro. Penso que consegue cumprir esse propósito, mas é impossível não notar que foi escrito por sete pessoas muito distintas. Há vários momentos ao longo do enredo em que se percebe facilmente um esforço enorme do autor do capítulo para tentar dar a volta e arranjar forma de prosseguir uma história tão caótica - um esforço que às vezes resulta em soluções que passam o limite do razoável, mesmo para um livro deste estilo.  É muito perceptível a existência de momentos que funcionam como "muletas": apoios e formas de prosseguir a história muito, muito descabidos, usados à falta de melhor. Falta, por isso, uma grande dose de coesão e coerência à obra. À parte disso, penso que se lê muito bem, rapidamente, e cumpre o propósito de conseguir ser divertido.

Sílvia às 17:55
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Segunda-feira, 30 de Novembro de 2009

.: 114. As Intermitências da Morte, José Saramago :.

216 páginas

 

Sinopse:

No dia seguinte ninguém morreu.

 

Assim começa este novo romance de José Saramago.

Que a morte tem as suas extravagancias, já todos nós sabíamos. Mas que se cansasse de exercer a sua principal actividade, nunca nos passou pela cabeça!

Imagine que, de um momento para o outro, num certo país, as pessoas deixam de morrer. Estarão os líderes e os habitantes desse país preparados para gerir a vida eterna e as suas consequências?

Colocada a hipótese, o autor desenvolve-a em todas as suas vertentes, e o leitor é conduzido com mão de mestre numa ampla divagação sobre a vida, a morte, o amor, e o sentido, ou a falta dele, da nossa existência.

 

Opinião:

Fantástico. Já ouvi dizer que esta é possivelmente a obra da vida de Saramago, e embora não tenha tanta notoriedade como o Memorial do Convento, por exemplo, é sem dúvida um livro excepcional.

Saramago retrata a morte como nunca antes foi feito; para muitos de nós é o medo supremo, o medo de morrer, mas aqui conseguímos até simpatizar com esta figura tão temível. Por vezes, penso que fiquei até com pena.

Uma óptima escolha, este livro, para quem pretende começar a ler Saramago: é pequenino, tem um enredo que quase se pode classificar como um pouco louco... lê-se de um fôlego.

Sílvia às 12:21
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Domingo, 25 de Outubro de 2009

.: 109. Memorial do Convento, José Saramago :.

360 páginas

 

Sinopse:

 

Era uma vez um rei que fez promessa de levantar um convento em Mafra.
Era uma vez a gente que construiu esse convento.
Era uma vez um soldado maneta e uma mulher que tinha poderes.
Era uma vez um padre que queria voar e morreu doido.
Era uma vez.

 

Aproximam-se agora um homem que deixou a mão esquerda na guerra e uma mulher que veio ao mundo com o misterioso poder de ver o que há por trás da pele das pessoas. Ele chama-se Baltasar Mateus e tem a alcunha de Sete-Sóis, a ela conhecem-na pelo nome de Blimunda, e também pelo apodo de Sete-Luas que lhe foi acrescentado depois, porque está escrito que onde haja um sol terá de haver uma lua, e que só a presença conjunta e harmoniosa de um e do outro tornará habitável, pelo amor, a terra.
Aproximam-se também um padre jesuíta chamado Bartolomeu que inventou uma máquina capaz de subir ao céu e voar sem outro combustível que não seja a vontade humana, essa que, segundo se vem dizendo, tudo pode, mas que não pôde, ou não soube, ou não quis, até hoje, ser o sol e a lua da simples bondade ou do ainda mais simples respeito. São três loucos portugueses do século XVIII, num tempo e num país onde floresceram as superstições e as fogueiras da Inquisição, onde a vaidade e a megalomania de um rei fizeram erguer um convento, um palácio e uma basílica que haveriam de assombrar o mundo exterior, no caso pouco provável de esse mundo ter olhos bastantes para ver Portugal, tal como sabemos que os tinha Blimunda para ver o que escondido estava... E também se aproxima uma multidão de milhares e milhares de homens com as mãos sujas e calosas, com o corpo exausto de haver levantado, durante anos a fio, pedra a pedra, os muros implacáveis do convento, as salas enormes do palácio, as colunas e as pilastras, as aéreas torres sineiras, a cúpula da basílica suspensa sobre o vazio. Os sons que estamos a ouvir são do cravo de Domenico Scarlatti, que não sabe se deve rir ou chorar...


José Saramago

 

Opinião:

 

Este foi o terceiro livro que li deste autor, e também, desses três, o que foi escrito há mais tempo. São visíveis algumas diferenças, quer na forma de "contar a história," quer na linguagem, mas o que nunca deixa de estar presente é o inconfundível estilo de Saramago.

É uma obra um pouco mais densa, que tem que ser lida com calma e com o espiríto certo para se poder saborear a belíssima historia de amor, (entre tantas outras histórias) que transmite.

 

Penso, no entanto, que uma melhor escolha poderia ter sido feita no que toca à obra de Saramago que integra o programa de Português de 12º ano. Não que este não seja um livro fabuloso, que o é. Mas a verdade é que muitos dos estudantes que chegam ao 12º nunca antes tiveram contacto com a escrita de Saramago. E esta é uma obra que, a acrescentar ao estilo pouco ortodoxo do escritor, tem uma linguagem muitas vezes complicada e um enredo com alguns momentos pesados, que não se lêem facilmente. Todos estes factores podem servir não o objectivo de motivar para que se conheça melhor Saramago e a sua obra, mas conduzir ao exacto oposto.

 

Espero, apesar de tudo, que esses casos sejam a excepção à regra. Depois do choque inicial, cada página da sua obra é uma verdadeira delícia!

Sílvia às 10:52
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Quinta-feira, 7 de Maio de 2009

.: 97. Ensaio Sobre a Lucidez, José Saramago :.

330 páginas

 

Num país indeterminado decorre, com toda a normalidade, um processo eleitoral. No final do dia, contados os votos, verifica-se que na capital cerca de 70% dos eleitores votaram branco. Repetidas as eleições no domingo seguinte, o número de votos brancos ultrapassa os 80%.
Receoso e desconfiado, o governo, em vez de se interrogar sobre os motivos que terão os eleitores para votar branco, decide desencadear uma vasta operação policial para descobrir qual o foco infeccioso que está a minar a sua base política e eliminá-lo. E é assim que se desencadeia um processo de ruptura violenta entre o poder político e o povo, cujos interesses aquele deve supostamente servir e não afrontar.

Ensaio sobre a Lucidez constitui uma representação realista e dramática da grande questão das democracias no mundo de hoje: serão elas verdadeiramente democráticas? Representarão nelas os cidadãos, os eleitores, um papel real, e não apenas meramente formal?

 

Sílvia às 21:36
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